:OLHO MÁGICO:


Gênero: Thriller Psicólogico
Roteiro e Direção: Moacir Prudêncio Jr.
Elenco: Cláudio Costa Val
Participação Especial: Teuda Bara
Ano: 2008
Cor: Preto e Branco/Colorido
Bitola: 16mm
Local: Belo Horizonte

SINOPSE:

Um Rapaz sozinho na sala de seu apartamento. De repente, alguém com uma voz ameaçadora bate à porta. No mesmo instante ele descobre uma alta quantia em dinheiro no bolso do roupão. Este e outros estranhos acontecimentos irão desencadear uma fuga na qual crime, cifras e Beethoven serão as peças fundamentais de um quebra-cabeça cujo sentido será revelado somente através do olho mágico de uma porta.

EQUIPE:

Assistente de Direção: Cecília Japiassú Porto
Produção Executiva: Cristiano Romanelli e Cláudio Costa Val
Direção de Produção: Mariana Mattos
Assistente de Produção: Cecília Gabrielan
Direção de Fotografia: Sérgio Gomes
Câmera: Sérgio Gomes
Still: Luisa Moraes
Continuista: Camila Esteves
Direção de Arte: Moacir Prudêncio Jr.
Produção de Arte: Camila Esteves e Rebeca de Paula
Maquiagem e Figurino: Carolina Breviglieri e Expedita Rafaela
Captação de Audio: Tiago Miranda
Edição: Bruno Souza

terça-feira, 16 de setembro de 2008

nº 14 - o som da lua.


Quando o Rapaz descobre no bolso do roupão uma alta quantia em dinheiro, nos primeiros minutos de filme, nós espectadores testemunhamos um transição de foco narrativo do realismo da sala que ele habita para o interior de sua consciência, a constar: um lugar não menos fétido que o outro.
Esta transição se dá através de música. Ludwig Van Beethoven invade o silêncio pincelado de ruídos incidentais para sincronizar o encadeamento dos planos com o terceiro movimento da elétrica Sonata Nº14, popularmente conhecida como Moonlight Sonata. A partir daí, o real sai de cena para dar lugar a um universo tétrico no qual objetos e situações se rearranjam de forma peculiar, desrespeitando a lógica e a convenção próprios da verossimilhança.
Se a opção por uma narrativa livre de diálogos requisita da imagem uma precisão potencializada de seus efeitos estéticos, o mesmo acontece com a música. Aqui, no nosso caso, acontece também com o intérprete.
Mesmo que integre, ao lado de outras tantas, o núcleo popularizado das sonatas, muitas vezes sendo considerada entre os vanguardistas como um recurso “batido” e clichê, o terceiro movimento da Sonata Nº14 exige do seu intérprete destreza e condicionamento impecáveis para sua execução.
Considerando estes fatores técnicos, assim como a importância desta música para nosso filme, Cecília Gabrielan: a Maria Moura dos apoios e parcerias, vestiu a roupa e as armas de Jorge para enfrentar mais um dragão de proporções homéricas. Desta batalha surgiu Jairo. Durante uma reunião organizada na escola Minueto, ele se mostrou disponível para executar dois movimentos da Moonlight para a trilha sonora: o primeiro e o terceiro. Nosso segundo encontro aconteceu na Fundação de Educação Artística, que nos cedeu para tal uma sala com piano. Lá, Jairo deitou sobre as teclas o peso perturbador da música de Beethoven, enquanto o som era gravado a partir dos aparelhos de captação. Depois disso, este material seguiu para o tratamento, edição e, finalmente, teremos uma trilha. Quando isso se der, a peteca cai na mão do editor e ele faz a mágica:
Um editor é o alquimista da sétima arte... mas isto é tema para outro dia.

Saravá!

vem Kafka comigo...


Para Mariana Mattos,

Sabe-se que o calor, quando na temperatura adequada, é capaz de acionar ou acelerar o processo de uma reação química. Fenômenos como o da fermentação, por exemplo, são possíveis garças a isso. De acordo com o dicionário Caldas Aulete, de 1958, fermentescível é a qualidade de todo corpo orgânico que realiza o movimento interior pelo qual este se agita e decompõe. Portanto, decomposição não é apenas uma ação autônoma, mas o destino inevitável de tudo aquilo que um dia pôde-se considerar vivo, exceto Mc Fritas.

Pizzas, portuguesas ou à moda, são autoridades exemplares em matéria de decomposição. Nós não precisamos mais de duas semanas para criar um viveiro de proporções admiráveis de fungos e demais aeróbicos. Sobre o tecido apodrecido de tomates e fatias de mussarela erguiam-se verdadeiros canyons de uma massa viva colorida de verde, musgo e tonalidades do gênero. Proliferaram tanto... como baratas.

Infeliz, porém verídica associação. Não contente, havia 60 delas no set de filmagem. Elas e mais alguns agregados consangüíneos gerados da noite para o dia sabe-se lá como: a vida sexual dos insetos ortópteros não é um tema agradável para ser tratado neste momento. Encomendadas especialmente para uma figuração significativa para o filme, as tais celebridades kafkianas ocuparam um sem número não previsto de takes que atrasaram o andamento das gravações. Por isso, algumas delas acabaram sendo vítimas de ataques histéricos de alguns fãs indignados.

Pois bem, realizemos um instante cinéfilo-masoquista: cerca de quinze pessoas, fechadas dentro de uma pequena sala com dois fresnéis 650 e um fresnel 300 ligados a todo vapor sobre pilhas de saco de lixo, frutas apodrecidas, pizzas em estado avançado de putrefação mais uma legião de baratas sedentas pelos seus quinze minutos de fama. Tudo isso para fazer um filme, ou melhor, uma cena deste filme que não durará mais de dois minutos.

Sabe, é o calor. O mesmo que aciona ou acelera reações químicas capazes de contaminar milhões de centímetros cúbicos de ar fresco com um odor ácido e enjoativo, obrigando os mais sensíveis a trabalhar com máscaras protetoras. O mesmo calor que cria bolhas por debaixo de camadas de tinta seca, que ativa os poros e borbulha lágrimas de suor sobre bustos, testas e pescoços. Este mesmo calor une um grupo de determinados à procura da inefável experiência do frame, da catarse fotografada e transformada em cinética.

Essa equipe forma um tempero de histórias e referências admiráveis. Todas, deveras salutares. Com uma baixa aqui, outra acolá, chegamos juntos ao último dia de gravação. Dia de uma vivência desesperadamente soturna, pelo menos para mim. Que pude ver e sentir o cheiro da miséria deformada de uma personagem até então possível apenas na literatura. E ainda me pergunto se será possível também no cinema, pois lá não haverá o odor, não haverá o suor, não haverá o contato intimista com o lixo ou com a goteira. E baratas, serão insetos inofensivos.
No escuro da sala e do ar condicionado tudo sucumbe. Tudo sucumbirá.
Por que os meus olhos, impregnados da verve teatral, insistem numa leitura absolutamente performativa de “:Olho Mágico:”. E, considerando-o desta forma, a partir deste domingo nada mais existe: o Rapaz, as Vizinhas, os Pedestres... todos mortos. Não passarão da condição de espectros quando projetados sobre o telão.

Mas é assim: cada arte com sua natureza. Com seu instante. Se fosse o contrário, nada teria propósito: da primeira reunião até o fechamento da rua, da Dona Catarina até a dor na vesícula... Tudo isto são memórias, até aqui e adiante. Por que um dia, quando as imagens projetadas não forem mais suficientes, todos se lembrarão do calor.

Bem-vindos à pós-produção: Independência ou Morte!

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Pedestres!


Domingo, 31 de Agosto: HALLOWEEN*.

Foi dia deles: os pedetres. Num total de 37 figurantes, todos voluntários. Um acontecimento digno. No entanto, as entidades obscuras permaneciam na ronda, insistentes.

Tudo começou quando cheguei na Avenida Afonso Pena, no centro de Belo Horizonte. A famigerada feira hippie, que de contracultura não tem nada, obstruía a trajetória convencional dos ônibus circulares.

Então... me perdi. Pra variar.
Quase uma hora depois encontrei outro ponto. Abarrotado. Um movimento e uma quantidade de pedestres fora do comum.

- Qual colégio? - me perguntaram.
- Oi?
- Não vai fazer a prova num colégio?
- Oi?

Exame Nacional do Ensimo Médio: ENEM.
O próprio. Os jovens enlouquecidos, atormentados, imagine só? Sedentos pelo gabarito que podia render seu ingresso no Ensino Superior. Um ônibus estacionava e a multidão se atropelava, uns por cima dos outros, até alcançar a porta. Eu conhecia esta cena de algum lugar, sabia que conhecia...
Acionei a Assitência de Direção e passei a bola - que assumisse a direção enquanto isso não se resolvia.
Com muito esforço e paciência a minha vez chegou. As horas batiam asas para o meio do dia. Desencanei. Pra relaxar fiz como sempre faço: Bethânia no mp3, em volume altíssimo. Cheguei sorrindo na Rua Iraí. Os figurantes já estavam lá. Obviamente.
Mas nada acontecia. Nenhum movimento. Somente os motoristas lançando palavrões ao nosso simpático editor que se ocupava de manter a rua fechada.

- Filme é o %#@*{##!!! Vai filmar a @+**&¨%4#@!!!!

Quando realizei que para filmar é necessário uma câmera, descubro tão surpreso quanto esta constatação que ela estava trancada dentro do carro da fotógrafa do filme. Pois sim, ela havia trancado o carro com a câmera e a chave do lado de dentro. E todo aquele nada acontecendo era por isso: eles aguardavam a chegada do pessoal do seguro para abrir as portas e nos brindar com a ambicionada ferramenta.
E depois ainda têm a coragem de dizer que tudo não passa de mitos e lendas urbanas.

Passado o maremoto, tudo correu muito bem. Também pudera.
Os figurantes foram excelentes, já haviam lido o roteiro, compreendiam o clima da trama. E mais ainda, generosos em sua participação. Muito obrigado mais uma vez, e mais mil outras. Não é fácil erguer e manter um projeto como este: independente em todos os sentidos, principalmente no financeiro. Vamos continuar torcendo para que, na pós-produção, tenhamos boas notícias acerca da finalização. Será outro mês e a astrologia promete ares renovadores. E ainda, mesmo que as crenças e costumes estejam mesmo desaparecendo, nunca é demais lembrar deles agora, considerando parcerias profissionais como momentos de comunhão. A gente olha bem direto para o futuro patrocinador, talvez nem diga, mas chega a pensar:

- Doce ou travessura?
*A Referência ao Dia das Bruxas é apenas simbólica, considerando o fato de possuirmos personagens com esta temática no set de filmagem. Sabe-se que a data verdadeira corresponde ao 31 de Outubro.

Vizinhas...


Sábado, dia 30 de Agosto: Véspera das Bruxas, no entanto, elas já rondavam corredores frios em busca de uma silhueta viva, um contorno humano sobre o qual deitar seus olhos famintos de calor. Estas são as Vizinhas. A do centro é a Síndica. Dia de gravação no além, ou como já disse a saudosa Estamira: "... no além dos além."

Vocês sabem, as pessoas dizem coisas:

Fala-se da inexplicável e inesperada morte de Heather O'Rourke logo após as gravações de "Poltergeist". Do misterioso incêndio que destruiu parte do set de "O Exorcista", além de outras mortes súbitas no elenco.

Lendas ou não, é disso que sobrevivemos. Estes fatos estarão sempre aí a povoar o imaginário dos espectadores e fortalecer o arsenal de causos dos produtores cinematográficos. Nós tivemos os nossos nas gravações de "No Banheiro", e obviamente, o mesmo acontece com ":Olho Mágico:".

No final de semana, véspera de Halloween, nada poderia ser mais sugestivo: uma tempestade digna de um romance de Stephen King jorrou sobre Belo Horizonte e a luz acabou bem no meio das gravações. E no set, contávamos com a presença de um cadáver asfixiado com sacos de lixo, um rapaz "esquizo bipolar" e um grupo de vizinhas com o pé mais lá do que cá, agarradas a suas vestes de luto e crucifixos.

Enfim, coincidência ou não, fomos vítimas do mistério: só pra adoçar um pouco mais a rapadura... No domingo é o dia delas, de fato. Pra finalizar o escuro: um brinde no Maleta e banho de sal grosso.

Axé!