:OLHO MÁGICO:


Gênero: Thriller Psicólogico
Roteiro e Direção: Moacir Prudêncio Jr.
Elenco: Cláudio Costa Val
Participação Especial: Teuda Bara
Ano: 2008
Cor: Preto e Branco/Colorido
Bitola: 16mm
Local: Belo Horizonte

SINOPSE:

Um Rapaz sozinho na sala de seu apartamento. De repente, alguém com uma voz ameaçadora bate à porta. No mesmo instante ele descobre uma alta quantia em dinheiro no bolso do roupão. Este e outros estranhos acontecimentos irão desencadear uma fuga na qual crime, cifras e Beethoven serão as peças fundamentais de um quebra-cabeça cujo sentido será revelado somente através do olho mágico de uma porta.

EQUIPE:

Assistente de Direção: Cecília Japiassú Porto
Produção Executiva: Cristiano Romanelli e Cláudio Costa Val
Direção de Produção: Mariana Mattos
Assistente de Produção: Cecília Gabrielan
Direção de Fotografia: Sérgio Gomes
Câmera: Sérgio Gomes
Still: Luisa Moraes
Continuista: Camila Esteves
Direção de Arte: Moacir Prudêncio Jr.
Produção de Arte: Camila Esteves e Rebeca de Paula
Maquiagem e Figurino: Carolina Breviglieri e Expedita Rafaela
Captação de Audio: Tiago Miranda
Edição: Bruno Souza

terça-feira, 16 de setembro de 2008

vem Kafka comigo...


Para Mariana Mattos,

Sabe-se que o calor, quando na temperatura adequada, é capaz de acionar ou acelerar o processo de uma reação química. Fenômenos como o da fermentação, por exemplo, são possíveis garças a isso. De acordo com o dicionário Caldas Aulete, de 1958, fermentescível é a qualidade de todo corpo orgânico que realiza o movimento interior pelo qual este se agita e decompõe. Portanto, decomposição não é apenas uma ação autônoma, mas o destino inevitável de tudo aquilo que um dia pôde-se considerar vivo, exceto Mc Fritas.

Pizzas, portuguesas ou à moda, são autoridades exemplares em matéria de decomposição. Nós não precisamos mais de duas semanas para criar um viveiro de proporções admiráveis de fungos e demais aeróbicos. Sobre o tecido apodrecido de tomates e fatias de mussarela erguiam-se verdadeiros canyons de uma massa viva colorida de verde, musgo e tonalidades do gênero. Proliferaram tanto... como baratas.

Infeliz, porém verídica associação. Não contente, havia 60 delas no set de filmagem. Elas e mais alguns agregados consangüíneos gerados da noite para o dia sabe-se lá como: a vida sexual dos insetos ortópteros não é um tema agradável para ser tratado neste momento. Encomendadas especialmente para uma figuração significativa para o filme, as tais celebridades kafkianas ocuparam um sem número não previsto de takes que atrasaram o andamento das gravações. Por isso, algumas delas acabaram sendo vítimas de ataques histéricos de alguns fãs indignados.

Pois bem, realizemos um instante cinéfilo-masoquista: cerca de quinze pessoas, fechadas dentro de uma pequena sala com dois fresnéis 650 e um fresnel 300 ligados a todo vapor sobre pilhas de saco de lixo, frutas apodrecidas, pizzas em estado avançado de putrefação mais uma legião de baratas sedentas pelos seus quinze minutos de fama. Tudo isso para fazer um filme, ou melhor, uma cena deste filme que não durará mais de dois minutos.

Sabe, é o calor. O mesmo que aciona ou acelera reações químicas capazes de contaminar milhões de centímetros cúbicos de ar fresco com um odor ácido e enjoativo, obrigando os mais sensíveis a trabalhar com máscaras protetoras. O mesmo calor que cria bolhas por debaixo de camadas de tinta seca, que ativa os poros e borbulha lágrimas de suor sobre bustos, testas e pescoços. Este mesmo calor une um grupo de determinados à procura da inefável experiência do frame, da catarse fotografada e transformada em cinética.

Essa equipe forma um tempero de histórias e referências admiráveis. Todas, deveras salutares. Com uma baixa aqui, outra acolá, chegamos juntos ao último dia de gravação. Dia de uma vivência desesperadamente soturna, pelo menos para mim. Que pude ver e sentir o cheiro da miséria deformada de uma personagem até então possível apenas na literatura. E ainda me pergunto se será possível também no cinema, pois lá não haverá o odor, não haverá o suor, não haverá o contato intimista com o lixo ou com a goteira. E baratas, serão insetos inofensivos.
No escuro da sala e do ar condicionado tudo sucumbe. Tudo sucumbirá.
Por que os meus olhos, impregnados da verve teatral, insistem numa leitura absolutamente performativa de “:Olho Mágico:”. E, considerando-o desta forma, a partir deste domingo nada mais existe: o Rapaz, as Vizinhas, os Pedestres... todos mortos. Não passarão da condição de espectros quando projetados sobre o telão.

Mas é assim: cada arte com sua natureza. Com seu instante. Se fosse o contrário, nada teria propósito: da primeira reunião até o fechamento da rua, da Dona Catarina até a dor na vesícula... Tudo isto são memórias, até aqui e adiante. Por que um dia, quando as imagens projetadas não forem mais suficientes, todos se lembrarão do calor.

Bem-vindos à pós-produção: Independência ou Morte!

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