
O meu diálogo com Felipe, o Assitente de Fotografia, tem se dado da seguinte forma: envio para ele fotografias cuja luz carrega referências de imagens construídas pela narrativa do conto. Ele as observa e retorna com o parecer técnico que é próprio de sua criação. Hoje, à procura de uma foto de corredor tomei uma surpresa. Um daqueles momentos quando as palavras encaixam-se perfeitamente dentro de uma imagem. Isso é raro de acontecer, mas é possível. Encontrei uma foto de corredor que é a tradução literal de como ele é descrito no conto. Neste corredor, em preto e branco, acontece a última cena do filme. O momento no qual o espectador testemunhará o gesto derradeiro desta infeliz personagem. Por isso, há drama nesta luz: manchas fortes substituem o fardo e um efeito de estranhamento não permite os olhos identificarem o objeto gerador destas manchas. Espectros à margem. Na beira e pelos cantos anunciando o rompimento de um fio de vida qualquer. Esta luz é o laço que une esta personagem ao mistério. Isso eu posso dizer organizando palavras numa frase. Agora, se para nosso filme ela é possível isso quem dirá é Felipe. Por que isto é prática, o resto é poesia.
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